sábado, 27 de agosto de 2016

A MALDIÇÃO CHAMADA CÂNCER…

CARLOS AUGUSTO PRATES DE MENEZES

História biográfica.
Direitos Reservados (reprodução proibida)



A   sombra da morte.

Meu trama começou em 1979, quando minha mãe adoeceu, e o diagnóstico era assustador Câncer de Colo do útero.

Nessa época eu tinha apenas 13 anos de idade, a notícia era sombria, assustadora pois se sabia que o portador de tal doença inevitavelmente iria morrer.
Mamãe tinha 50 anos, era uma senhora, forte, alegre, trabalhadeira, extremosa, presente.

Era funcionária do frigorífico Swyft Armour na cidade de Rosário do sul.

Nossa casa era um casebre misto de madeira e paredes de tijolos sentados a barro.

Três quartos, sala e cozinha, a cozinha grande medindo, cinco metros de cumprimento por três de largura, sem forro e de chão batido, pátio grande com árvores frutíferas, muita sombra, porém sem energia elétrica ou água encanada.

A luz era de lampião a querosene ou velas, a água tinha de se buscar no poço, que ficava a um km.

Lembro – me do dia em que soube da confirmação da doença de mamãe, foi numa tarde, escondi – me embaixo da mesa da cozinha, mesa rústica feita de madeira, que media 2,20 de largura por 3,30 de cumprimento era maio 1979, o inverno estava chegando e já fazia muito frio, e esse dia chovia muito, e ali embaixo da mesa eu chorei muito pensando em como seria a vida sem minha mãe.

Embaixo da mesa da cozinha era meu esconderijo secreto, ali eu passava horas quando estava triste e chateado com alguma coisa, ali era meu mundinho particular onde ninguém , me perturbava e as vezes tinha por companhia os gatos de minha  irmã Célia, que vinham pedir carinho.

Aquela tarde chorei até a noite chegar, eu não tinha com quem dividir minha angústia, já sabia o que era a morte, já tinha ido a alguns velórios e sepultamentos, e agora essa bandida e nefanda chamada morte rondava minha casa.

Os dias que se passaram foram de grande expectativa e medo do que iria acontecer, como cristão eu orava e acreditava, mas o céu parecia de bronze, mas Eu sempre soube que Deus cura e podia curar toda e qualquer enfermidade, mas tinha de esperar, porque não se pode ir contra a vontade de Deus e se ele terminou que Eu tinha que passar por esse vale, Eu passaria louvando – o.

Seguiram –se dias de tratamento e enfim foi encaminhada a Porto Alegre, para fazer a remoção do útero, mas chegando lá constataram os médicos que a doença, um Carcinoma com metástases disseminadas, estava em estágio avançado e não podia se fazer nada, a não ser a quimioterapia.

De volta a nossa casa, a rotina era internar e desinternar no hospital Nossa Senhora Auxiliadora, pois devidos as fortes dores e sangramento, mamãe não podia ficar em casa, seus gritos de dor as vezes eram tão terríveis, que até hoje parece que ouço, ao lembrar daqueles dias de sofrimento.

Minha mãe tinha um e setenta de altura, pesava seus 76 quilos, que foram sumindo pouco a pouco, cada dia Eu via ela morrer aos poucos.

Muitas vezes ouvi em meio seus delírios de dor, clamar para que a morte a recolhesse logo, para que terminasse o sofrimento.

1980 foi um ano rotina de ir e vir ao médico e ao  hospital ,mês de maio ele internou ficou dez dias, e deu alta, como o INSS, só garantia internação de 10 a 15 dias , ela internava ficava aquele período e dava alta e passava um dia em casa e depois tornava a internar.

Pagar tratamento particular não tínhamos dinheiro pra isso, a família apesar de grande todos muito pobres, sobreviviam na garra, na raça.

Tornei me acompanhante permanente de mamãe com permissão das freiras carmelitas que administravam o hospital, e irmã Lúcia que se compadecia de nosso sofrimento, me permitia ficar cuidando de mamãe mesmo que isso não era comum, criança ser acompanhante.

Eu ajudava no podia limpava o quarto banheiro as vezes corredor numa forma de agradecer, o corpo de enfermagem começou me treinar de foram que aos 14 anos eu me tornei auxiliar de enfermagem, as medicações de mamãe em casa eram administradas por mim, via oral, endovenosa e intramuscular.

No hospital eu ajudava muitos outros pacientes em situação semelhante de minha mãe que estavam sem acompanhante.

Mamãe há muito só fazia as necessidades fisiológicas na cama, numa comadre, banho na cama e por muitas vezes Eu tinha de ajudar ela sozinho, curativos diários eram feitos nas escarras de leito, e feridas nos pulsos e tornozelos que se originaram pelo rompimento de vasos sanguíneos ao não suportarem mais as punções endovenosas. 

Quando ela passava um ou dois dias em casa eu dormia num quartinho de frente ao dela e com uma lanterna debaixo do travesseiro, ela gemia e eu pulava da cama, eram dias de muita dor, mas Eu desejava um dia acordar e ver minha mãe andando e comendo, vivendo de forma normal.

Mas quando acordava do pouco que conseguia dormir, ela estava gemendo e chorando sob a cama, com a graça de Deus consegui ter forças de enfrentar e ir levando minha cruz.

Passei muita fome como acompanhante de mamãe, o pouco que vinha para ela como paciente, e sobrava eu comia, não tinha dinheiro para ir na cantina comprar uma bolacha.

O hospital para mim se tornou um presidio, Era doloroso   ver minha mãe sofrer de dia e de noite.

Nos horários de visita eu me afastava um pouco e as vezes um ou outro conseguia ficar mais um pouco com ela então Eu ia em casa dormir um pouco.

Meu pai com 61 anos, aposentado por problema cardio chamado coração grande cuidava do casebre, e do meu outro irmão menor (9anos) ,que na verdade era meu primo adotado por mamãe.

Quando Eu vinha em casa, meu pai fazia um gostoso carijó , feijão e arroz temperado com cebola ,alho e banha, e farinha de mandioca Eu comia até ficar pesado.

Os dias e meses passavam lentamente e Eu morava no hospital, sentado ao lado da cama de minha mãe, dormia sentado numa poltrona, que tinha aos pés da cama,nas noites frias de inverno, ligava o aquecedor elétrico que pouco resolvia.
Nos poucos momentos de calmaria onde ela, estava aparentemente sem dor, pelo efeito contínuo do coquetel endovenoso com morfina, nós conversávamos, Ela falava do desejo de partir e deixar de sofrer, mas também da preocupação de deixar os filhos.
Chorava e me agradecia por Eu estar ali a beira de sua cama, ser paciente e atende-la como se fosse um adulto, mas na verdade,  Eu não passava de um menino assustado.
Ela me falava de sua fé e amor por Jesus, cantava comigo algum louvor.
Quando alguém ficava com ela até mais tarde no domingo eu corria para o  culto na Igreja Batista Betel, ali eu me sentia bem, louvando a Deus, eram momentos de paz de esperança, ninguém jamais entenderia meu trama , minha dor ,ali no banco eu chorava quietinho e ao final da reunião voltava para pousar no hospital com mamãe.
 Eu olhava pela janela o movimento da rua lá embaixo pois estávamos no segundo piso, e desejava sair ,caminhar ,correr ,sumir para algum lugar onde não houvesse dor.
Dra. Marta Prates era cirurgião dentista e presidente da liga feminina de combate ao câncer, deu muita assistência a minha mãe, e assim também cuidou de meus dentes cariados de graça, compadecida de ver minha situação.
Sempre que ia ao hospital me dava uns trocados para um lanche, Eu descobri que existe no mundo pessoas bondosas e solidárias que não ficam indiferente com o sofrimento alheio e que se pudessem acabariam com todo o tipo de sofrimento.
Dr. Valdir Batistela   ginecologista que cuidava de minha mãe, era homem muito humano sua visita era duas vezes ao dia pela manhã cedinho e tardinha  e sempre sentava a beira da cama e ficava batendo um papo.
A Tereza minha irmã teve que fazer uma cirurgia de vesícula e Eu cuidei dela e da colega de quarto que também estava operada.
Afinal o hospital já era minha casa.
Meu pai Gaspar Cardoso de Menezes a fora o problema cardio ,nunca tinha adoecido, de repente começou com diarreia e desidratação e foi levado ao médico que decidiu internar para hidratar, porém estava com a glicemia alta e ninguém desconfiou ,fez soro glicosado a 5% e veio a falecer pela madrugada, e foi sepultado dia 23 de fevereiro de 1983, Eu não sabia  mais o que pensar ,meu pai morreu e minha mãe estava a caminho ,como seria sem eles?

Meu irmão Jorginho também passou pela cirurgia de apêndice e eu cuidei dele.
Eu comecei sentir dores no estomago e bexiga, que descia pela perna esquerda, fui consultar e no plantão Dr. Adilson que já era nosso conhecido atestou que eu estava com esgotamento nervoso de passar agora já quase dois anos de acompanhante de um doente no ambiente hospitalar.
Foi recomendado que eu fosse retirado do hospital imediatamente, fiquei dois dias sem ver mamãe e voltei, porque ela chorava e reclamava minha ausência, dizia que só eu sabia cuidar dela, e então voltei a acompanhar ela.
As dores aumentaram e eu me sentia muito mal cheio de náuseas, e o pastor da igreja que era de Livramento, falou pra minha irmã que me levava para consultar lá se quisessem, com o médico Dr. Antoninho, excelente cirurgião.
Assim embarquei com o pr. Luis Carlos para livramento uma segunda 9hs da manhã, durante a viagem as dores abdominais aumentaram, e cheguei muito mal, ao posto de atendimento do Inss ,para marcar consulta.
Lembro que apaguei na fila, quando acordei ,o médico me examinava e no consultório havia vários atendentes do posto, o diagnóstico foi peridonite aguda ou seja apêndice estourado, tratamento cirurgia de emergência.
Fui internado as pressas por vota de 13hs o Dr. Antoninho veio me ver e disse preciso de um responsável teu que assine autorização pra cirurgia já.
Como não tinha ninguém e Eu  menor de idade , ouvi ele dizer  ao auxiliar de enfermagem, sem parentes ou responsáveis  para autorizar cirurgia de emergência, caso greve ,risco de morte, porém não tenho culpa se algo acontecer, anote no prontuário.
Volto amanhã as 7hs da manhã para operar e que tenha alguém aqui a fim de autorizar senão esse guri vai morrer, se é que vai amanhecer vivo, pois está com o apêndice supurado.
Assim por ordem do médico tinha de ficar de barriga pra cima sem me mexer nas próximas horas até a operação do outro dia.
Minha irmã Eva chegou no ônibus das 22:00 hs e ficou comigo na santa casa, aquela noite.
Na amanhã seguinte as 6.30 fui conduzido a sala de cirurgia com autorização de minha irmã, lembro de ver as luzes fortes dos holofotes cirúrgicos e a enfermeira dizendo, você vai dormir agora, pôs algo no frasco de soro e adormeci.
Acordei na recuperação com dores abdominais, fui medicado e transferido para o quarto, ao fim daquela tarde Dr. Antoninho veio me ver, agora muito sorridente e brincalhão, comentou:
-Esse guri escapou por pouco, me deu muito trabalho lavar todo o intestino dele e recolocar no lugar, a supuração estava alastrada, mas se aguentou até hoje agora não morre mais, só ficou uma cicatriz grande e feia na barriga ,mas quando te perguntarem o que foi isso tchê, diz que foi uma briga de china ( mulher valente) nos costados do Uruguai.
Tu vai ficar mais dois dias fazendo antibiótico por prevenção e depois te libero pra casa.
Sei que ao todo fiquei cinco dias internado, mas pela misericórdia de Deus voltei com vida para casa.
Dez depois, dias retirados os Eu permanecia na casa da Evinha minha irmã por parte do Pai.
Em 25 dias voltei a cuidar de minha mãe no hospital, porque ela vivia chorando que ninguém cuidava dela como Eu.
Mamãe estava muito magrinha, suas fezes fediam muito e eram uma espécie de barro preto, o médico me explicou que era mais sangue que fezes, que ela estava perdendo.
Vi minha mãe definhar dia após dia sem poder fazer nada, sempre orava a Deus que na hora de sua partida não queria estar junto no quarto.
Então no dia 26 de julho sábado, fui a igreja culto para jovens, uma de minhas irmãs ficou cuidando dela, quando voltei por volta de 21 horas, vi muito corre , corre no corredor do hospital e no quarto dela. E quando entrei ouvi o enfermeiro dizer   ela acabou de falecer.
Olhei seu rosto magro e sofrido, e vi um sorriso de leve estampado, sobre seu peito a Bíblia e suas cruzadas em posição de oração.
Chorei muito, mas dava graças a Deus que estava findando meu cativeiro e sofrimento.
O corpo de minha mãe foi levado para o templo da Igreja Batista Betel, onde todos foram se despedir ,o culto fúnebre naquele domingo a tarde 27 de julho de 1983 , eu cantei com meu irmão Jorge em dupla dois dos hinos que ela mais gostava, e fora um pedido seu cantem por mim, naquele dia.
Divino, companheiro e a viagem sem bagagem esses foram os hinos que cantamos conforme o pedido de mamãe, nunca foi tão difícil  cantar, mas conseguimos ir até o fim.
Após sepultamento no cemitério municipal ,cheguei em casa sozinho no meu rancho velho, já estava escurecendo, que solidão.
Sem energia elétrica o jeito era dormir cedo, foi uma noite de muita tristeza acordava chorando no meio da noite, mas orava a Deus senhor tem cuidado de mim.
As refeições Eu fazia na casa de minha irmã Evinha , mas a casa muito pequena para  dormir lá era no chão da sala, e ai Eu preferia ir pra casa e não incomodar .
Na igreja sempre fui muito querido de todos, então irmã Alaídes Roquete viúva que cuidava de suas netas, meninas de 6 e 7 anos , me convidava vai lá pra casa com a gente somos sozinha meu filho vai tomar chimarrão, a até dormir se quiser tenho um quartinho aos fundos pra você e assim me adotou.
Eu estava com 16 anos para 17 anos, aquele ano transcorreu assim, de casa em casa contando com a bondade dos irmãos que realmente foram muito bondosos, pois me acolhiam com muito amor.
Eu havia deixado os estudos de lado pra cuidar da mãe, não conseguia emprego cidade pequena sem recursos, a pensão deixada por minha mãe era repartida entres três irmãos menores Eu recebia muito pouco para sobreviver ,mas enfim Deus cuidou de mim, chegou a época de me alistar no exército, e  nossa Igreja sede que era em São Gabriel me chamou para ser Evangelista de tempo integral.
Não servi a  pátria me alistei no exército de Deus e fui trabalhar na evangelização das almas .
Abri trabalho( Igrejas) em Alegrete, Santana da Boa Vista e Santa Maria no Rio Grande do Sul.
Aos 18 anos acabei morando em Bagé onde fui praticamente adotado pela família Dalbão Daneres, onde fui tratado como um filho, morava com eles e trabalhava no frigorifico  Bordon S/A, com eles morei cerca de um ano com eles ,gente que amo  e considero até hoje, pois Deus colocou pessoas generosas em meu caminho.
Como tinha treinado enfermagem na época da doença de mamãe ,consegui me empregar na Santa Casa de Bagé ,como atendente de enfermagem,
E assim conheci a Andrea na igreja Batista de Bagé , noivamos casamos Eu com 21 anos e ela com seus 16 anos, no dia 31 de outubro de 1987.
Morei dois anos mais em Bagé e mudamos para a grande Porto Alegre capital ,para trabalhar eu continuava trabalhando em hospital como enfermeiro atendente ou auxiliar .
E assim Deus em sua bondade me fazia um vencedor a cada dia, atualmente estou com 49 anos dois filhos lindos, um de 21 outro de 15 , e 28 anos de casado.

FIM









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